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segunda-feira, 14 de abril de 2008

Conselhos a um jornalista

Na edição de Abril/2008 da SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, J.R. Minkel entrevista o físico H. Jeff Kimble, do California Institute of Technology sobre teletransportes. Após algumas perguntas sobre os avanços em teletransportes quânticos [1, 2], o entrevistador tenta (bravamente !) uma guinada no assunto:

[MINKEL] Mudando de assunto - esse novo filme, Jumper, é sobre um menino e outro personagem que se teletransportam de um lugar para o outro.

[KIMBLE] Não sabia disso.

[MINKEL] Se você assistir a X-Men 2, o Noturno...

[KIMBLE] Também não assisti a X-Men.

[MINKEL] Você assiste à série Heroes?

[KIMBLE] Não. Assisto a alguns jogos de futebol americano.

[MINKEL] Mas conhece o capitão Kirk...

[KIMBLE] Gostaria de lhe dar um conselho. Não fale sobre teletransportar pessoas em seu artigo. Existe um pioneirismo incrivelmente emocionante na ciência atual que não existia há 15 ou 20 anos [...] Há experiências acontecendo que são realmente estimulantes.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O menor experimento de dupla-fenda

Cientistas de várias partes do mundo fizeram, em conjunto, o que chamaram de "O mais simples experimento dupla-fenda" [1]. Atiraram elétrons contra uma molécula de hidrogénio, fazendo-os passar entre os prótons da molécula. O H2 é como se fosse o anteparo e o espaço entre os prótons é como se fosse uma fenda. A conclusão do experimento é que o sistema se comporta classicamente e os efeitos quânticos de interferência e emaranhamento são desprezíveis... Eu não entendi os detalhes do experimento e infelizmente estou sem tempo de fazê-lo... Encaminho o leitor para o site Science Daily, que noticiou o trabalho em novembro do ano passado... Todas as outras notícias que vi, em todos os outros sites, possuem exatamente o mesmo texto, de modo que não ajudam de modo algum e nem vou citá-los. Mas há um lugar em que o texto é ligeiramente diferente daquele da Science Daily. É o blog Cocktail Party, de Jennifer Ouellette. O texto dela sobre o assunto chega a ser divertido, já que ela explica o experimento fazendo Paris Hilton no papel de físico experimental... No mais, ela faz uma longa revisão sobre a dualidade onda partícula desde os tempos em que Thomas Young usou experimentos com fendas para mostrar que a luz é uma onda (o caráter dual onda/partícula era inimaginável na época de Thomas Young - sécXVIII).

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[1] "The Simplest Double Slit: Interference and Entanglement in Double Photoionization of H2,", de D. Akoury et al.:

Science 9 November 2007:
Vol. 318. no. 5852, pp. 949 - 952
DOI: 10.1126/science.1144959

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Trava-língua quântico

Saiu hoje um trabalho cujo título é um verdadeiro trava-língua quântico:

Would Bohr be born if Bohm were born before Born? (*)

Postei isso aqui só porque achei o título do trabalho engraçado. Mas, já que começei, deixem-me dizer mais ou menos do que se trata. Os três homens são grandes personalidades na história da mecânica quântica.

Max Born propôs, em meados da década de 1920, que a o quadrado da função que aparecia na equação de Schrödinger fornece a probabilidade de a partícula estar em um determinado estado. Baseado nesta idéia, Niels Bohr fundou a chamada "interpretação de Copenhague da mecânica quântica", segundo a qual a Natureza não nos permite um conhecimento completo de um sistema físico, mas apenas em termos probabilísticos.

Já David Bohm, tomou um rumo diferente. Sua interpretação era de que a mecânica quântica era uma teoria incompleta e que o aspecto probabilístico era devido à "variáveis ocultas". Formulou então uma interpretação determinística por volta de 1950.

Segundo H. Nikolic, autor daquele título (o trabalho é o de menos... pra mim, ele é o "autor do título"!), a interpretação de Copenhague, que é hoje a mais aceita pela comunidade de físicos, teria menos adeptos se a interpretação determinística de Bohm tivesse surgido antes daquela probabilística de Born.

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(*) Em português, perdemos parte da graça, mas a tradução literal do título do trabalho é "Teria Bohr nascido se Bohm tivesse nascido antes de Born?".

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Como resolver um problema secular em 150 paginas.

Autora da façanha: Janeen Hunt.


Em 1954, cerca de um ano antes de sua morte, Albert Einstein escreveu, em carta ao seu amigo Michele Besso:

"Em todos estes cinqüenta anos de reflexão, não cheguei nem perto de responder à pergunta: 'O que é o quanta de luz?'. Hoje em dia, todo Antônio, Ricardo e Haroldo pensa que sabe respondê-la, mas ele está enganado."


Poor fellow...

sábado, 21 de abril de 2007

Mecânica quântica e Realidade

O que chamo de "realidade objetiva" é o seguinte: As coisas existem mesmo quando não observadas.

Isso é uma questão antiga. Muitas vezes apresentada assim: "Uma árvore cai no meio da floresta e ninguém está por perto. A queda fez barulho?" Se a realidade for algo subjetivo, somente faz sentido perguntar-nos sobre aquilo que observamos e que determinado fenômeno só acontece realmente quando é observado. Note, entretanto, que "observador" não é, necessariamente o homem, podendo ser uma câmera de vídeo, ou algum equipamente que guarde aquela informação de modo irreversível. Ou seja, nada tem a ver com a "consciência" humana.

A coisa interessante é que a revista Nature desta semana contém um artigo que afirma ter mostrado experimentalmente que a tal realidade objetiva pode não existir. Para continuar falando disso, uma rápida digressão:

A não-localidade é a suposição de que um evento pode influenciar, instantaneamente, um outro que esteja arbitrariamente distante. O paradoxo EPR, proposto por Einstein, Podolsky e Rosen, sugeria que a mecanica quântica era não-local. Estes autores argumentaram que isto seria uma falha na teoria quântica, já que nenhum sinal poderia ser transmitido com velocidade superior a da luz.

Em 1964, entretanto, o irlandês John Bell mostrou um modo de verificar a existência da não-localidade. O experimento foi realizado na década de 80 pelo francês Alain Aspect, que mostrou que realmente a mecânica era não-local, mas que isso não violaria o postulado de que nenhuma informação pode ser transmitida à uma velocidade maior do que a da luz. Ou seja, há , de fato, uma correlação entre dois sistemas separados, mas essa correlação não pode ser utilizada para trasmitir informação de um ponto para outro do espaço-tempo (o melhor lugar onde eu vi isso discutido foi no livro do prof. Mysés Nussenzveig, Curso de Física Básica vol.04).

Um resultado semelhante ao de Bell, mas desta vez focado no aspecto "realidade" da mecânica quântica, foi obtido pelo físico norte-americano Anthony Leggett (premio Nobel de física em 2003 por suas contribuições no estudo da supercondutividade e superfluidez). Tal resultado permitia uma verificação experimental da realidade objetiva. O artigo de que falei da Nature descreve um experimento (feito pela equipe de Anton Zeilinger e Markus Aspelmeyer) no qual concluiu-se que a não-localidade não é compatível com a realidade objetiva. Como a não-localidade já havia sido demosntrada, a realidade corre perigo...

É importante chamar atenção ao fato de que estes resultados não justificam as fantasias loucas que baseiam-se na mecânica quântica, como a "Lei da Atração", sobre a qual falei no post anterior.

Para ler mais sobre este assunto interessantíssimo, sugiro algumas referências: [1], [2], e [3].

quinta-feira, 19 de abril de 2007

O Segredo - o filme

Assisti O Segredo. Só uma parte do mesmo, na verdade, pois tudo o que há para dizer é dito em uns 15min. O resto do filme é uma repetição da mesma idéia. A idéia é que há um "segredo", que ao longo da história somente foi revelado a poucos.

O "segredo" é pensar positivo para conseguir as coisas. Acredito que isso é uma coisa boa e penso que a maioria das pessoas que obtiveram sucesso acreditavam em si mesmas. Há uma série de explicações possíveis para isso. Para citar apenas uma, acreditar em si mesmo faz com que você não desista facilmente e, por insistência, você atinge seus objetivos.

Mas a explicação que Rhonda Byrne (autora do livro "O Segredo") dá para a relação otimismo/sucesso é bem mais mirabolante: Supõe que há uma lei universal chamada "Lei da Atração" que faz com que o Universo conspire para dar a você algo que vc queira muito. Em princípio, pode haver tal lei, embora a história nos mostre que as explicações mais simples em geral são as corretas (lembre-se dos epiciclos no sistema geocêntrico de Ptolomeu).

O grosseiro e desleal da idéia é falsamente basear-se na mecânica quântica, que nada fala sobre a "Lei da Atração". Essa má utilização da mecânica quântica para explicar as idéia estapafúrdias das pessoas têm se tornado assustadoramente comum. Já falam até da "empresa quântica"!!! Já ouvi muitas vezes a frase "Mas isso é provado científicamente...". Falam sobre mecânica quântica e relatividade, mas, quando perguntados sobre estas teorias, fica claro que não conhecem nem mesmo seus postulados básicos.

Além dessa barbaridade, o filme contém ainda outra coisa bastante desagradável: é extremamente materialista. Para dar exemplos de como usar o "segredo" a seu favor, falam quase sempre em mentalizar o carro que vc deseja, ou o colar, ou uma bicicleta. Chegam a afrmar que é só mentalizar o valor em dinheiro que vc quer receber por ano e esperar que o Universo fará o que tem que ser feito para você!!! Sim! Dizem para ESPERAR.

Não assisti até o fim. Pela linha que seguiam, não duvido que ao fim do filme digam que é possível ressuscitar sua bisavó se vc quiser muito isso...