terça-feira, 15 de junho de 2010
O Sonhador
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
O Casamento do Diabo
SATÃ teve um dia a idéia
De casar. Que original!
Queria mulher não feia,
Virgem corpo, alma leal.
Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.
Resolvido no projeto,
Para vê-lo realizar,
Quis procurar objeto
Próprio do seu paladar.
Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.
Cortou unhas, cortou rabo,
Cortou as pontas, e após
Saiu o nosso diabo
Como o herói dos heróis.
Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.
Casar era a sua dita;
Correu por terra e por mar,
Encontrou mulher bonita
E tratou de a requestar.
Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.
Ele quis, ela queria,
Puseram mão sobre mão,
E na melhor harmonia
Verificou-se a união.
Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.
Passou-se um ano, e ao diabo,
Não lhe cresceram por fim,
Nem as unhas, nem o rabo...
Mas as pontas, essas sim.
Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Um lugar
Que, sendo colossal,
Tem dimensões ínfimas.
Um lugar fascinante
Que ninguém viu
E jamais verá.
A Luz resolveu visitar
E ficou por lá.
O Tempo, muito cético,
Quando viu, parou extático.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Inércia
não havendo pelo seu meio
empecilho ou emperramento,
reza essa lei sem titubeio:
continuarás o teu movimento
indo reto em teu passeio
até que impeçam teu intento.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Preâmbulo d'A Arte de Amar
tive em mim o pensamento incutido
de instruir alguma alma perdida
que ainda não tenha conhecido
as ardilosas sutilezas do Amor;
ou que ainda não tenha aprendido
a arte de dominar o seu furor.
Seria falso dizer que foi Febo
o meu guia e verdadeiro tutor.
Quem me dita esta obra, mancebo,
é tão-somente minha experiência!
Ah! Mas eu desde já me apercebo
que ao leitor falta indulgência;
para perdoar tamanho sacrilégio
de tratar tal assunto como ciência,
dessas que se aprende no colégio,
quando é claro que isso não se faz:
não se ensina o sentimento régio!
Mas digo que o Amor, tão contumaz
quanto das crianças a mais mimada,
pode, por um pulso firme e eficaz,
ser domado pela alma preparada;
assim como a própria tempestade
respeita o piloto de mão treinada!
Cada vez que o Amor me invade,
ou me fere o peito com sua lança,
eu vejo como uma oportunidade
de bem preparar minha vingança!
E é por isso que ele me obedece:
pois eu conheço dele cada nuança.
Todavia, o poema que aqui se tece
não se trata desse Amor bandido,
mas somente aquele que enaltece.
Cantarei aqui só o Amor permitido
e não ensinarei nenhum ato infame,
nada que possa ser repreendido.
Meu desejo é que aprenda e ame!
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Drummond, físico teórico
a gente logo se pergunta como seria...
Por exemplo, se ele fosse fisicozinho,
eu digo que é assim que ele diria:
"Tinha uma brana no meio do caminho,
que quebrava metade da supersimetria."
E isso tinha que saber bem direitinho
senão é certo que dificuldades ele teria!
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Desânimo
"Mas a mim a quem concede, e para quê?
Enéias não sou, nem Paulo, e não consigo
crer-me digno de tal, nem ninguém crê.
Portanto, se a seguir ora me obrigo,
temo que um desatino isso seria;
és sábio, e mais entendes do que eu digo".
Como quem não quer mais o que queria
se nova idéia altera a sua proposta,
e da primeira todo se desvia,
tal fiquei eu naquela escura encosta
porque, pensando, consumi o intento
ao qual dera tão rápida resposta.
[P.S.: o trecho é Inferno, Canto II.31, na tradução de Italo Eugenio Mauro]
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Metafísica
Que não usa, entretanto,
O nome de Deus em vão.
Usa Vontade, a cega intuição,
O conhecer por sentimento;
A coisa-em-si; idéia de Platão.
Mas, como não há excomunhão,
Apenas discórdia de pensamento,
Parece mais pura esta devoção.
domingo, 10 de maio de 2009
Sobre a falta do Agá
E nem á de aver.
Não assim com a,
Pois aver tem agá.
Sigo buscando na vida o agá,
Que em silêncio se faz notar.
Quando encontrar o agá,
Novidades hei de contar.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Poema de Raul Seixas
A saudade é um parafuso
Que quando a rosca cai
Só entra se for torcendo
Porque batendo não vai
Mas quando enferruja dentro
Nem distorcendo não sai.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Light at end of tunnel

- Oh, stars of the night!
Why are you so bright?
I'd like to get your light...
- So, we have to fight!
- Ok, let's do it tonight

- Yes! Just pick up a site!
- Then I'll claim the light
That is mine by right.
- Well... not quite!
terça-feira, 10 de julho de 2007
Mistérios
alguma vez,
parou pra pensar
"Foi alguém que fez
isso tudo que há?"
Talvez nesse Universo;
Talvez noutra dimensão;
Talvez só num verso...
Pode existir ou não!
Decerto é bem triste
crer no Fim que virá
sem que assim se aviste
Algum modo de continuar!
Mesmo a imensidão do mar
e a complexidade da mente
não servem pra demonstrar
a existência de um regente.
Pra mim, procurar entender
o que há para além daqui
é mais difícil do que ver
quatro perpendiculares entre si.
terça-feira, 19 de junho de 2007
A Alegoria da Floresta
Atravessando uma grande floresta,
Onde passaremos alguns instantes,
Um naco de tempo que Deus empresta.
Ao que parece, não há comunicação
Possível entre aquele ainda por vir
E os outros, que na floresta estão.
(E nem com quem já teve que sair.)
Há aqueles que vão já avançados.
Cada um deles dá uma recomendação
Àqueles sôfregos recém-chegados,
Antecipando tudo que encontrarão.
"Haverá um trecho de escuridão total.
Não deixe de levar lanterna, eu lhe digo!
E haverá também um grande temporal,
Então sugiro que prepare logo um abrigo."
E descrevem os mais terríveis fatos
E o aparecimento de animais selvagens.
Explicando que, mais do que ornatos,
Precisarão de armas nas suas bagagens.
Mas os novos pensam, imprudentes,
Que podem diminuir seus fardos,
Não incluindo alguns ingredientes
Que só tornam seus passos tardos.
Assim andam bem mais rápido, realmente,
Devorando todos os frutos, floresta afora.
Mas eis que eles encontram, finalmente,
Tudo aquilo que lhes fora dito outrora.
Sem a lanterna para ver na escuridão,
Ou abrigos para suportarem a tempestade,
Refletem, angustiados com a situação:
"Os velhos falaram a mais pura verdade!"
Sem tempo para resolverem suas próprias vidas
Decidem buscar redenção nos novatos que chegam.
Previnem e mostram como provas suas feridas
Chegam a ser violentos, exigindo que os ouçam.
Mas os novatos pensam, imprudentes,
Que podem diminuir seus fardos,
Não incluindo alguns ingredientes
Que só tornam seus passos tardos...
terça-feira, 29 de maio de 2007
O Auto da Montanha
Ao admirar aquela bela montanha.
Certa manhã, acordou à revelia
Decidido a tentar tal façanha.
Pois desejava o topo conquistar,
E chegar àquele longínquo cume,
Para sentir na face a brisa soprar
E respirar o seu leve perfume.
Assim, seguiu decidido à baia,
E montou em seu cavalo manco
E ali permaneceu, de tocaia,
Esperando por algum solavanco.
Mas logo viu que já na vertente
Havia cavaleiros e até romaria
E deduziu mais que corretamente
Que por ali jamais conseguiria.
Foi então que buscou outra trilha
Mais íngrime, mais extensa escalada.
Tomou fôlego e apertou bem a cilha,
E rumou enfim à crista desejada.
Por ser mais longa essa sua trilha,
Muito mais do cavaleiro ela exigia
Inclusive um estado de total vigília
E cuidado com as pedras que havia.
Mas aconteceu que, já cansadíssimo,
Pegou no sono no momento crucial,
No instante em que chegou ao cimo,
De onde prosseguiu seu manco animal.
E, estranhando a descida, acordou,
Vendo afastar de si a bela crista,
E as imagens com que há pouco sonhou
Pensando consigo, muito pessimista:
"Eis que não volta o tempo maldito!
Tampouco pára esse maldito cavalo!"
E sentiu pesar no seu peito aflito
A beleza da crista ainda a encantá-lo.
sábado, 19 de maio de 2007
Eletromagnetismo
E eis que larga
Com velocidade impressionante
Um campo duplamente oscilante.
Sua velocidade é constante
Não importando o instante
Nem a rapidez do manancial
E nem mesmo o referencial.
É uma velocidade-limite
E, se um corpo insiste
Em rápido assim viajar,
Fatalmente se frustrará.
É disso que a relatividade trata:
De um tempo que se dilata,
E um comprimento que se reduz
Com a velocidade próxima à da luz.
Sei que é difícil ver
E mais difícil é crer.
Mas, quem é você
Pra duvidar do poder
Do Supremo Ser?
sábado, 12 de maio de 2007
Matemática e Física
Fez o carpinteiro um dia
Uma ferramenta de belo talho
Que não tinha serventia.
Mas o objeto era bem feito
E encantou toda a cidade
Apesar do grande defeito
De não ter real utilidade.
Colocaram até um encarte
Procurando quem soubesse dizer
O que, com essa obra de arte,
Deveríamos então fazer.
Até que um dia surgiu
Um nobre e sábio cidadão
Com um problema sutil
E tal ferramenta era a solução.
É esse busca incessante
Da mais perfeita união
Que torna o mundo fascinante
E dá à minha vida uma direção.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Maravilhas tecnológicas
Cinco séculos em turbilhão
Passando rápido à sua frente
Belezas chocantes da evolução.
Viu passando uma carruagem
Diferente, pois avançava rápida
Sem que se visse nenhuma imagem
Da incrível cavalaria intrépida.
Fascinado, viu os pequenos seres
Presos numa caixa com uma tela
Luminosa de divinos poderes
E a dança dinâmica da aquarela.
E foi com admiração e horror
Que viu a grande ave metálica
De canto agudo, ensurdecedor
A voar inerte... fantástica!
Assim veio o Apocalipse, o Último Dia.
De início, viu o próprio Demônio
Que a grande ave metálica trazia.
Sentiu o presságio do pandemônio.
Na placa ao lado, leu "Hiroshima".
Havia tumulto e gritos de crianças.
Hesitante e com pavor, olhou pra cima
Sentiu fugir-lhe as esperanças.
Acordou trêmulo, mas aliviado
Não havia caixas com arlequim,
Nem cavalos ocultos ou Demo alado...
Ainda não veio o nosso fim!